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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sobre o medo

Arthur tem medo.
Medo de barulho. Medo de parabéns.
Na verdade eu não sei se é um medo só. Nâo sei se ele associa algo na hora do parabéns que cause muito barulho. Aqueles fogos de papel, por exemplo. A gritaria das pessoas, não sei...
Tento puxar da memória mas não me lembro muito bem quando tudo começou.
A lembrança mais próxima vem do seu próprio aniversário, em JAN/11, que tirei-o contra a vontade do pula-pula para que cantasse parabéns e ele fez um baita escândalo. Algo nunca visto antes, mas que achei justificativa pois ele tinha acabado de entrar no pula-pula, sua brincadeira preferida em qualquer festa que vá, e eu fui lá tirá-lo.
No mesmo ano, mais precisamente em JUL/11 passamos a comemorar o mesversário do Téo. Um ambiente pequeno, muita gente em volta e na hora do parabéns ele correu para o quarto mais próximo e começou a chorar. O que seguiu nos mesversários seguintes.
A justificativa na ocasião era o sono. Como ele sempre foi reloginho para dormir, era bem mais "fácil" colocar a culpa no horário.
Os aniversários seguintes passaram a ser um tormento. Começamos então a tirá-lo do ambiente na hora do parabéns, pois se ficava era choro alto na certa.
No mesmo ano passamos a ter problemas com os fogos de final de ano. Foi muito, muito choro.
Em JAN/12, no seu próprio aniversário, em que fizemos uma festinha íntima para os mais próximos no quintal da casa de minha cunhada, não tivemos problema com o seu próprio parabéns. Foi a festa do Super Mario, ele participou de tudo e dividiu a hora do parabéns com o Renan, que nasceu no mesmo dia que ele. Cantou parabéns, sorriu, tirou fotos... como entender?????
Na semana seguinte foi a comemoração do Renan, em um game do shopping que disponibiliza um pequeno salão de festa para a hora do parabéns. Ele se esbaldou de brincar, mas na hora do parabéns, em que os games são fechados, novo "ataque".
Ele não tem medo de barulhos corriqueiros, esses não o incomodam. O que incomoda mesmo são estouros em geral como fogos, estalinho e bola de gás estourada, esses são seus maiores inimigos.
Como explicar uma criança que sempre brincou de estalinho, de uma hora para outra passar a ter pavor?
Conversamos então com a pediatra e a fonoterapeuta.
A pediatra indicou psicólogo.
Nas palavras dela: "Pode ser que passe de repente, da forma como surgiu. Mas vai que isso siga com ele e cause um problema lá na frente?"
A fono disse que parecia sinal de pirraça. "Se fosse algum problema ele não cantaria parabéns no próprio aniversário." E orientou: "Que tal dizer que se não cantar parabéns, não vai poder ir à festa, e sem ir à festa não poderá usufruir do que ele gosta: brinquedos e pula-pula?"
E a gente passou a usar esse diálogo a cada festa, na expectativa de que o choro fosse embora.
Em algumas festas, ele realmente não chora. Eu acho quer tem a ver com o fato de estar entertido com alguma coisa, geralmente brincando.
Em outras festas, se fecham a parte de brinquedos e ele é "obrigado" a participar do parabéns, aí ele pede pra sair.
Se não tem pra onde sair, se o parabéns é daqueles rápidos e simples ele só tampa os ouvidos. Agora, se é daquele parabéns "estrondoso", não tem jeito... choro na certa!  
E então no meio desse comportamento alternado (ora chora, ora não), e para não correr o risco de lá na frente me arrepender, lá fomos nós conversar com a psicóloga indicada pela pediatra.
Duas horas para falar da vida dele desde que nasceu. Relembrar todo o histórico do atraso de fala, da falta de interação, do "quase" autismo, do santo relatório final da fono, enfim... tudo que eu queria que ficasse no passado... Não que não goste de falar do meu filho, mas tem uma hora que cansa, sabe? Cansa repetir as mesmas coisas para pessoas diferentes. Mas lá estava eu, tentando convencer a psicóloga a atender meu filho para SOMENTE tirar o medo de barulho/parabéns. O resto já estava resolvido. Para que futucar?  
Depois disso, ela tinha que avaliar o Arthur sozinho para saber o tratamento a ser seguido. Seriam 4 consultas. À noite. Único horário na sua agenda.
As duas primeiras semanas foram tranquilas. Arthur adorou a sala dela, com muitos jogos, ambiente lúdico, ela atendeu na hora combinada, tudo certo.
Na semana seguinte ela não tinha horário logo após a saída da escola. Ele saía às 17h da escola e ela tinha horário tipo 20h. Como o consultório fica próximo da escola, Adriano o levou direto pra lá na esperança de desistência de algum paciente, o que não aconteceu. Arthur ficou cansado da espera e quando entrou na sala a consulta não rendeu. Ela me ligou na semana seguinte explicando que não havia sido proveitosa aquela consulta, ela mesma entendeu os motivos, mas disse que a última consulta seria crucial e que para isso o atenderia no horário de outra criança, logo após a aula, para não correr o risco dele estar cansado.
A última consulta aconteceu e então fomos chamados para o "veredicto".
Ela falou das duas primeiras excelentes semanas. De como ele interagiu com ela. De como respondeu ao que foi solicitado. Que foi tudo ótimo, e blá, blá, blá. Mas... (sempre tem um "mas" e isso me irrita profundamente) as duas últimas semanas foram de um Arthur que não respondia ao seu chamado, que ele só respondia quando queria, como se fosse surdo ( ...e tudo aquilo que eu já ouvi antes, como se quisesse achar um outro problema que na minha opinião não existia... ).
E lá fui eu dizer que o pai era da mesma forma quando criança, que o pai brincava horas com um barquinho no ar, ou mesmo com um jornal amassado, e que não adiantava ninguém chamar, ele não atendia... e que o pai é assim até hoje...
Não adiantou. Era como se a genética não tivesse peso algum. Como se as duas primeiras semanas - tão excelentes - não tivessem peso algum.
E ela continuou: para seguir um tratamento, precisava descartar o "déficit de atenção". E para descartar, era necessário que ele passasse por uma junta médica, com um encaminhamento dela, mas que dentre os médicos da junta tinha de ter um médico específico que ela super indicava, mas que somente atendia na Santa Casa de Misericórdia (espera na fila por um ano ou mais) ou no CNA - Centro de Neuropsicologia Aplicada, que é uma clínica particular com valores acima do que podemos pagar.
E eu pagaria. Eu juro que pagaria. Venderia carro, faria empréstimo, faria qualquer coisa que fosse desde que me dissessem que dessa vez seria a última palavra.
Mas e o risco de inventarem o déficit de atenção?
Quem sou eu para discutir com um médico que meu filho é tão desligado quanto o pai? E que mesmo assim o pai é normal?
Quem sou eu para discutir com um médico que meu irmão também sempre teve poucos amigos? E é normal...
Quem sou eu para dizer para um médico que barulhos muito altos também me assustam, me perturbam? E eu sou normal...
E então criança hoje em dia não pode ser muito espoleta que é hiperativo. E se é calmo demais, tem déficit de atenção...
E isso cansa...
Só em pensar em ter que explicar tudo de novo me dá um desânimo tão, tão, tão grande...
Custava a psicóloga ajudá-lo com esse problema específico?
Eu tenho consciência que posso estar privando Arthur de um tratamento contra esse inimigo que ele tem, o bendito barulho. Sei que pode piorar. Sei que isso pode prejudicá-lo no futuro.
Mas é o que tenho para hoje.
Outro dia liguei pra psicóloga, sei lá, me bateu o peso na consciência. "Vamos agendar na Santa Casa e ver o bicho que vai dar!"
Mas só a dificuldade em falar com ela já torna o processo cansativo.   
Aí alguém deve me perguntar: "Procura outro psicólogo e acaba logo com isso, ora bolas!"
Então... tô esperando bater o peso na consciência de novo.
Por enquanto, ficamos assim:
Quando ouve fogos ele pergunta: "Que barulho é esse, mamãe?" e eu respondo: "São fogos de festa, filho!" "Foi gol do Flamengo!" e acabou-se o assunto.
No desfile cívico da escola em que ele desfila desde bebê (que tem banda de música no meio das crianças e soltam fogos de artifícios durante todo o percurso), no ano passado ele desfilou de ouvidos tampados e a gente viu o quanto ele sofreu com aquilo. Esse ano optamos por não levá-lo. E descobrimos que como ele, algumas crianças da escola também não curtem aquele barulho todo, e já não vão desde anos anteriores.
Em festas em que o barulho é muito forte e ele não tem nada para desviar a atenção, tiramos ele do ambiente. Se tem pula-pula ele nem se incomoda, no máximo tampa os ouvidos.
Outro dia fomos numa festa em que o som estava muito alto e o animador gritava demais (incomodando até a mim) e não tinha nenhum atrativo para ele... o pai o levou pro carro e ele dormiu. Simples assim.
O sono pode ser uma fuga? Sim, pode. Mas quem não tem uma fuga para as adversidades da vida?
O que me mantem confiante é ouvir relatos de várias pessoas que também se incomodavam quando crianças (tem algumas que até hoje...) e nem por isso viraram adultos problemáticos.
E então é isso...
Eu sei que o post ficou enorme, mas eu precisava colocar tudo que me vinha na memória aos poucos para que o assunto fizesse sentido. Foram cerca de 10 dias para conseguir finalizar.
Engraçado que relembrando todo o processo fui fazendo uma análise dos fatos e cheguei a conclusão de que nesses dois anos e tal (em que o problema passou a acontecer) ele melhorou bastante. Acho que entender o tempo dele é o principal. Sem forçá-lo a fazer o que não quer.
Não é uma questão de concordar com uma pirraça, ou de contribuir para piorar um eventual problema. Hoje, eu acho que é questão de respeitá-lo. E só.
Pelo menos por enquanto. Até sentir necessidade de procurar a psicóloga de novo, se for o caso.
Último aniversário que fomos, do Oliver.
Ele não chorou, mas não saiu de onde estava, no portão de saída da casa.   

3 comentários:

Rosi Silva disse...

Barbie quem nao tem sua particularidade nesse mundo de hoje? O Joao Vitor tambem tampava os ouvidos na hora dos fogos quando era menor e hoje com 8 anos ja nao faz mais, o Arthur esta no tempo dele! Bjos amiga, saudade...

Rosi Silva disse...

Barbie quem nao tem sua particularidade nesse mundo de hoje? O Joao Vitor tambem tampava os ouvidos na hora dos fogos quando era menor e hoje com 8 anos ja nao faz mais, o Arthur esta no tempo dele! Bjos amiga, saudade...

Eva disse...

Sandra, tinha um tempo que não passava por aqui. Assim como não atualizo meu cantinho lá.
Vi você falando que está no face. Tentei te achar lá mas não consegui. Será que conseguimos nos achar por lá? Rs. Meu perfil é Eva Borges. Adoraria manter esse nosso contato.
Arthur está enorme!! Sete anos!! Tempo voando. Mil beijos.