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quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Sobre o meu pai

Para mim, dia dos pais tem sempre uma pitada de melancolia. De pensar no meu pai, das coisas que não vamos mais compartilhar, das coisas que eu nunca disse, das divergências que não mais existirão, do orgulho que ele não vai ter dos netos, enfim...
Meu pai era pernambucano. Na infância sofreu paralisia infantil e tinha limitações para fazer quase tudo. Puxava da perna, mas andava normalmente. Na verdade a paralisia só começou a prejudicar quando foi ficando mais velho, e a barriga cresceu... rs A mesma barriga que servia de colchão na minha infância. Como eu pulava nela... rs
Eu era apaixonada pelo meu pai. Lembro perfeitamente quando ele apontava no final da rua e eu ia correndo na direção dele. Sempre tinha um saquinho pardo com um monte de balas. Todo domingo era eu a responsável em comprar a coca-cola no bar da esquina, e também eram minhas as moedas que sobravam. Todo aniversário era comemorado com o bolo que ele trazia da Padaria do Fernando, no Catete, onde ele tinha a barraquinha de camelô. Todas as crianças iam chegando, e o bolo só chegava praticamente na hora de cantarmos os parabéns... E era só o bolo! Nada de salgadinhos, cachorro-quente, pipoca, nada disso... era bolo e guaraná, só! E ainda assim a gente ficava tão feliz!
Eu fui uma criança extremamente feliz! Dentro de todas as dificuldades financeiras, nunca nos faltou nada. Tenho até hoje guardada a única boneca de valor que meu pai pôde me dar, uma barbie ciclista. Tá lá na minha mãe, guardada como um tesouro...
Sabe, meu pai não foi o melhor pai do mundo. Ele não foi o meu herói. Ele nem foi tão meu amigo assim... Mas eu guardo um orgulho danado dele! Por todas as dificuldades que ele atravessou para nos dar o mínimo de conforto, e por ter conseguido nos educar para sermos "alguém na vida", como ele dizia, embora tenha usado caminhos meio tortos, na minha opinião.
Quando eu cresci, a gente passou a entrar em atrito por tudo. Ele tinha um gênio forte, muito forte, e para ele quando algo era "não" era "não" e ponto! E eu, geniosa (puxei a quem, hein?) sempre contra-argumentava, queria que ele me desse motivos concretos ao invés de simplesmente proibir alguma coisa, dizia que se não era feliz a culpa era dele. Que se um namorado me abandonava a culpa era dele também.
Por ser menina e ainda por cima a caçula, eu era a princesa dele. E ele realmente se pudesse, me colocaria numa redoma. No auge de minha adolescência, isso era motivo de revolta, porque ele simplesmente queria escolher as minhas companhias. Dizia: "Fulana não serve para ser sua amiga", "Filha minha (nossa, como eu detestava aquele tom!) não vai fazer isso, não vai fazer aquilo.." e outras coisas que me machucaram tanto...
Chegava a proibir meu contato com meninos porque "menina tem que andar com menina" e isso era um problema, porque chegou uma época em que os trabalhos escolares eram imprescindíveis e eu nunca podia levar o grupo para minha casa, porque meu pai seria capaz de expulsar o pobre do menino que estivesse no meu grupo.
Eu achava que tinha todos os motivos para me rebelar. Muitas foram as vezes que pensei em fugir de casa, ou de arranjar um namorado para engravidar e esfregar um "você não pode me segurar" na cara dele. Não fiz pela minha mãe, confesso! Porque ela sim era minha companheira. Quando eu queria sair com minhas amigas ela sempre segurava o rojão, inventava estórias pro meu pai, e no fim eu não achava justo com ela, que sempre depositou total confiança em mim. Ela sim foi sábia! Soube trabalhar minha "aborrecência" direitinho...
Sabem que o tempo passou e todas aquelas meninas cujas companhias não serviam para mim foram engravidando ainda adolescentes, se prostituindo, levando realmente uma vida que era exatamente a que meu pai dizia, e eu não acreditava? Uma delas foi presa... E a cada coisa que a gente ia descobrindo o meu pai só me olhava, mas não jogava na minha cara um "viu só onde você queria se meter?" Não faço disso motivo para dizer que meu pai era um santo. Não, não era. Eu ainda acho que muito do que ele fez foi desnecessário. Mas de tudo o que passou, e depois de ter crescido e amadurecido, eu vejo que meu pai quis tudo, menos o meu mal.
Não soube se colocar, talvez. E talvez eu mesma não tenha sabido compreender algumas coisas.
O fato é que ele me amava e eu pude ver isso em seus olhos sempre que eu alcancei algum degrau. Foi assim quando comecei a trabalhar e conquistei o 1º salário. Quando me formei. Quando me casei. E até hoje eu imagino aquele olhar, a cada vitória que tenho na vida.
Infelizmente não teve tempo de conhecer o neto que lhe dei... embora eu saiba que a presença dele é constante lá em casa... rs (assunto para outro post)
Infelizmente existe muita gente na vida que acha que pode arrancar a vida de outro por nada. Ou quase nada, se eu levar em conta o motivo imbecil que fez com que ele fosse assassinado.
Se eu pudesse imaginar, de longe que fosse, que a vida dele naquele momento estava valendo R$600,00 (acho até que era menos que isso), eu mesma dava esse dinheiro para ele.
Mas deixemos isso pra lá. Nada vai trazê-lo de volta... nada!
Fico daqui, pedindo humildemente que Deus lhe tenha concedido um bom lugar. E que de onde ele esteja, continue olhando por todos nós.
Pai, eu amo você! E embora eu lamente não ter te dito isso em vida, eu sei que você já sabe...

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